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Escrito por Rubens Cavalcanti da Silva às 22h20
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Estranho

ESTRANHO

                                                                                                                  

O carro desgovernado entrou no barzinho em que estávamos e atropelou nós dois sem piedade. O corpo dela foi arremessado a alguns metros de distância e quando dele me aproximei já estava sem vida.

O lugar em que estávamos era um pequeno bar que, tenho certeza, já estivera antes e não saberia dizer em quais circunstâncias. As pessoas falavam alto, quase gritando e a moça no pequeno palco que cantava uma música da Calcanhoto, por vezes desanimava e interpretava a canção automaticamente e com indiferença. A não ser por algumas luzes coloridas o ambiente estava escuro e juntando-se a isso o som dos copos batendo uns nos outros ou nas garrafas completavam esse inferno. Havia prometido a mim mesmo parar de fumar mas diante daquela cerveja, daquela música e daquela mulher, que se fôda a promessa. Ela falava muito e tentava explicar-me coisas sobre física, viagem no tempo, passado presente e futuro e a coexistência de tudo isto. Tentou-me convencer também que o sonho e o mundo em que vivemos são visões diferentes da mesma realidade. O papo dela era muito bom, mas em minha cabeça eu só tinha uma intenção: levá-la para cama. Morena, bonita e inteligente; não me lembro como apareceu na minha mesa e nem como começamos a conversar.

Eu a observava por inteiro e o que mais me chamou a atenção era o modo como se vestia. Uma blusa curta que mostrava um pouco de sua barriga e estava sem sutiã. O jeans apesar de novo estava todo rasgado e não usava cinto. Como que lendo meus pensamentos disse-me que hoje em dia quem usa este tipo de acessório é retrô, segundo seus sobrinhos. Bebia pouco, mesmo assim já começava a ficar alegre. Seus cabelos eram curtos, pretos e bem cuidados. A atração por ela era grande e a sensação de conhecê-la também, mas algo me impedia de beijá-la.  Não creio que o motivo fosse por ela ser casada, pois eu nunca tive pudores nenhum com nada e principalmente desse tipo. O vestido preto que agora usava moldava seu corpo magro e esbelto e o decote baixo dava-me o prazer de admirar seus lindos seios.

As time goes by?  ela perguntou.

Sim. Respondi e aproveitei para me exibir um pouco falando do filme, do cantor negro no bar e etc. À vezes fico pensando porque nós homens temos essa necessidade de explicar tudo; de achar que sabemos tudo; de fazer de tudo para impressionar uma mulher. Será um fator genético? Por que a mulher aceita isso? Por que sempre ela fica com a mão no queixo quando falamos, fingindo interesse? São perguntas que me incomodam e que não tenho força para mudar. É como se fosse uma maldição, maldição do macho como escreveu certa vez um escritor paulista. Por coincidência o rapaz que cantava agora no palco, é negro e de dentro dele saia também uma voz negra que nos envolveu a todos. Ela ouvia, com a mão no queixo, claro, tudo que eu dizia mais eu sabia que o que ela queria mesmo era ouvir a musica. Então, para exibir um pouco meu inglês, comecei a cantar junto com o artista sussurrando em seu ouvido enquanto dançávamos. O cheiro que vinha de seus cabelos longos e dourados embriagou-me e num impulso procurei sua boca e a beijei.

  Já na mesa novamente acendi um cigarro. Senti que ela observava todos os meus movimentos e depois de tomar um gole do vinho perguntou-me.

Por que você não para com essa droga. Fingindo não entender perguntei.

Como assim? Ela insistiu.

 Por que você não larga o cigarro.  Irritado com sua intromissão em minha vida não respondi e lhe fiz outra pergunta.

Você gosta de ler?

Sim gosto muito, respondeu-me.

E o que você está lendo no momento?

O mundo de Sophia, disse. Para descontrair um pouco, brinquei.

Você me parece uma pessoa bem culta e inteligente. Ela riu e com um sorriso que jamais vou esquecer agradeceu.

Magina.

O som naquele momento era insuportável, mas quem não se delicia ouvindo e vendo os Beatles tocar e para completar John Lennon nos acenando, imagine. Todos naquele bar estavam de preto, inclusive os rapazes de Liverpool, menos a garota que estava comigo que voltava do toalete desfilando um conjunto de saia e blusa de cor branca. Ela destacava-se naquele ambiente escuro, cheio de fumaça e vozes. Sentou-se, pegou minhas mãos e tentou me dizer algo, porém um estrondo e um som de tijolos caindo junto com gritos de desespero das pessoas não deixaram que eu ouvisse o que ela tinha pra me dizer. Um carro desgovernado entrou no local em que estávamos e atropelou nós dois sem piedade. O corpo dela foi arremessado a alguns metros e quando dele me aproximei já estava sem vida.

 

Levantei-me. Ainda estava com gosto de nicotina na boca. Tomei um longo banho e depois de tomar um café reforçado fui trabalhar. O dia todo e por muitos meses depois, ainda lembrava-me deste sonho e não sei por que sentia saudade dela. Junto com este sentimento, experimentei também um remorso enorme e inexplicável. Deste dia em diante sempre sonhava com essa moça. Ela sempre me aparecia diferente em cada sonho, mas com o mesmo jeito; a mesma personalidade; o mesmo sorriso e a mesma alma. Sim, tenho certeza, era sempre a mesma alma.

Um ano depois, mais ou menos, quando saia do trabalho, resolvi dar uma esticadinha até a cidade mais próxima para me descontrair um pouco. Sábado e domingo não trabalho mesmo, pra que me preocupar, pensei. No carro eu ouvia um CD da Avril Lavigne que minha filha adolescente me emprestara e confesso que gostei do som, então, Let’s go!

Por favor, onde tem um bar por perto pra que eu possa tomar uma cerveja?  Perguntei ao rapaz no ponto de ônibus.

Pode subir direto, quando chegar no topo da avenida ela desce bruscamente ai o senhor anda uns três ou quatro quarteirões que é bem na esquina. Explicou-me.

E como se chama o boteco?  Brinquei.

RARDEISNAITI, se não me engamo.

Você vai pra aqueles lados? Quer uma carona? Perguntei.

Não moço brigado. Agradeceu-me desconfiado.

Subi. Estava feliz e me peguei cantando a música da Avril e batendo com as mãos no volante como nos filmes americanos. Comecei a descer e no primeiro quarteirão senti que havia algo de errado com o carro, os freios não funcionavam. Tentei brecar de tudo quanto foi jeito e nada. No desespero puxei o freio de mão, mas o carro se desgovernou, entrou num barzinho e atropelou um casal sem piedade. O corpo da moça foi arremessado a alguns metros e quando o rapaz que estava com ela chegou perto, a mulher já estava sem vida.

 



Categoria: Prosa
Escrito por Rubens Cavalcanti da Silva às 21h23
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Mapa Cultural Paulista 2009/2010



Categoria: Poesia
Escrito por Rubens Cavalcanti da Silva às 20h57
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Embarque na Leitura

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Escrito por Rubens Cavalcanti da Silva às 20h52
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Revista Literária Bacamarte

http://rubenscavalcanti.zip.net/literatura/

Neste mês, a Revista Literária Bacamarte, publica um de meus contos que tem como título, Vagão. Acesse o link acima e boa viagem.



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Escrito por Rubens Cavalcanti da Silva às 20h50
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Categoria: Vídeos
Escrito por Rubens Cavalcanti da Silva às 21h09
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